quinta-feira, 23 de junho de 2011

A violeira



O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sem passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praias onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo



Sophia de Mello Breyner Andresen

e é isso moça bonita
quero ver quem é que tira
nós aqui deste lugar
ah! mar...


1/2 bj salgado

terça-feira, 21 de junho de 2011

Everybodys Talkin



A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.



Sophia de Mello Breyner Andresen

e é isso
1/2bj

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Miss Invisible



 Por que não ?


 Eu olhei e pensei
 por que não?
 dezesseis anos mais velho,
 seguro
 homem de opinião
 e nenhum caráter.

 o velho truque do maduro
 um ator na vida,
 e eu pensei
 por que não?

 vai ver é um menino
 ...com medo
 vai ver se atrapalha
 não, acho que não.

 deve ser um pouco canalha
 como todos são
 um cruzar de pernas,
 um olhar grave
 não sei direito
 o que se faz pra ser querida
 uma posição mais provocante
 uma atitude mais desinibida.

 logo eu que morro
 de vergonha
 de tentar ser um pouco
 atrevida
 logo eu
 que o que cometo
 em sonhos
 seria incapaz
 de cometer na vida
 mas pensei
 por que não?

 o estímulo
 de uma aventura
 o prazer de ceder
 à tentação

 é tão raro acontecer
 esse desejo,
 dura tão pouco isso
 a novidade

 e depois
 não tem o compromisso
 da paixão

 come e depois
 espalha pra cidade

 aquela coisa machista
 insuportável
 estilo
 gosta de levar vantagem.

 chega de pensar bobagem
 não é possível
 que ele seja assim
 ele é sensível,
 inteligente,
 um homem que chora
 só falta agora
 um sopro de coragem,
 uma insinuação
 e se ele for
 um sujeito compulsivo
 maníaco depressivo,
 do tipo que atormenta
 astral anos sessenta
 e eu me arrepender
 profundamente?

 o ruim do porre
 é a ressaca
 se for um cara babaca
 desses dose pra analista
 se ainda for comunista
 do antigo pecezão
 não,
 claro que não

 ele é brilhante,
 contemporâneo,
 atuante
 ativo da linha de frente...

 e eu molhei os lábios
 sensualmente
 e pensei
 ....por que não?

Bruna Lombardi

então é isso moça
por que não???

quarta-feira, 15 de junho de 2011

SEU JEITO DE AMAR




Saudade


Saudade
De sua risada
Da cara marota
Da voz desafinada.
Saudade
Da lágrima no rosto
Quando sorri de emoção
Ou sente desgosto.
Saudade
De nossos pontos de encontro,
Dos barzinhos do Leblon
E do cinema Miramar.
Saudade
De estar sempre contigo
De saber que é meu amigo
De sair pra namorar.
Saudade
Da inocência perdida
Da energia contida
Querendo borbulhar.
Saudade
De estar presente
No corpo e na mente
E de lhe beijar.
Saudade
De um tempo passado
Do tempo presente
Do futuro que vai chegar.
Inez Alvarez

e é isso moça bonita
até mesmo
o amor-perfeito
um dia despetala.


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Livro sem cheiro não é livro.
Mesmo novo em folha tem que lembrar, nem que seja vagamente, uma mulher que se amou muito.
Se for livro velho, comprado no sebo, tem que cheirar a pó-de-arroz, patchouli, suores antigos e à mesma mulher que se amou muito, agora num apartamento azul com o quarto iluminado só pela luz difusa de um abajur lilás.

O objetivo de qualquer livro, mesmo aquele estalando de novo, pouco importa suas qualidades literárias, é esse: ficar, lá na estante, fazendo companhia à gente, ao lado de seus velhos amigos, outros livros, com eles conversando e lembrando, em silêncio, amores passados.
Todos prontos para conosco relembrarmos tudo, comovidos como o quê.

Experimente fazer isso com um livro eletrônico.


Do livro eletrônico - Ivan Lessa

terça-feira, 14 de junho de 2011

Conselho






Samba-canção
 
Tantos poemas
que perdi.
Tantos que ouvi,
de graça,
pelo telefone
- taí,,
eu fiz tudo
pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
 
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
era comércio,
avara,
embora um pouco
burra,
porque inteligente
me punha
logo rubra,
ou ao contrário,
cara pálida
que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
 
e tantas fiz, talvez
querendo a glória,
a outra
cena à luz de spots,
 
talvez apenas
teu carinho,
mas tantas,
tantas fiz...
 
 
Ana Cristina Cesar

e é isso moça
o meu conselho 
é pra te ver FELIZ!!!

domingo, 12 de junho de 2011

Se Eu Corro



O mundo começava nos seios de Jandira.

Depois surgiram outras peças da criação:
Surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos.)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
O ar inteirinho ficou rodeado de sons
Mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
Captavam objetos animados, inanimados.
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar

Quando Jandira penteava a cabeleira...

Depois o mundo desvendou-se completamente,
Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
Da cabeça aos pés,
Todas as partes do mecanismo tinham importância.

E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
De sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedeciam aos sinais de Jandira
Crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira

E eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
Deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
Por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
E apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.

Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.

E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas;

Não caía nem um fio,
Nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
Tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
A família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
Por causa de Jandira.
E um padre na missa
Esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira.

E Jandira se casou
E seu corpo inaugurou uma vida nova.
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os seios.

À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem

As formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo.

E o marido de Jandira
Morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
Fez um grande esforço para ressuscitar:
Não se conforma, no quarto escuro onde está,
Que Jandira viva sozinha,
Que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade

E que ele fique ali à toa.

E as filhas de Jandira
Inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
Espera que os clarins do juízo final
Venham chamar seu corpo,
Mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.



Murilo Monteiro Mendes

e é isso moça dos clarins do juízo afinal


beijos

sábado, 11 de junho de 2011

I've Got You Under My Skin




Uma música através dos
TEMPOS... 

Sim...
Uma música através dos tempos. 

A mesma melodia
que nunca pára de tocar
em nossas almas...

Alegria?

Mas uma alegria no peito
que dá quando a gente
sente o que sente
bem dentro da alma
dentro do coração
debaixo da pele. 

Quando sentimos,
mesmo não dizendo.

Que amamos profundamente alguém! 

A sensação de alegria
de contentamento
de felicidade.

Que só em pensar
no ser amado
nos provoca calafrios
e arrepios na pele... 

E independente do que
estejamos fazendo
ou onde estejamos
coloca em nosso rosto
aquele sorriso manso
bobo, infantil

Besta mesmo... 

Que imediatamente
provoca em quem esteja a nossa volta 
a pergunta:

O que foi? Viu um passarinho azul?

E a gente...
Balança simplesmente a cabeça
insinuando que não,
que não é nada. 

Mas o sorriso continua lá
agradando às vezes
ou incomodando muita gente

Os que se agradam disso
ficam felizes juntos
porque também já viram
ou ainda tem a felicidade
de ver
ou o sonho de um dia ainda ver... 

O tal do passarinho AZUL

Os que se desagradam
é porque não entendem
e nunca irão entender
a MAGIA que é o amor
a plenitude de prazer
a leveza de alma
permitida apenas àqueles
que sentem, que crêem
e que sabem o AMOR...

E é assim o amor em plenitude

Magicamente inexplicável! 

Assim como esta música.
que mesmo através dos tempos
continua sendo atual e interpretada
por tantos e tantos cantores

O que a torna atemporal 
assim como este amor
visceral, sem razão
sem explicação
que nos arrepia
quando o sentimos
debaixo da pele...

E é isso
moça dos olhos doces
eu te sinto debaixo da pele
arrepiando a minha alma!


beijos titânicos
e arrepios


antoniOCarlos

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Queda




Bebido o luar,
ébrios de horizontes,
Julgamos que viver
era abraçar
O rumor dos pinhais,
o azul dos montes
E todos os jardins
verdes do mar.

Mas solitários
somos e passamos,
Não são nossos
os frutos nem as flores,
O céu e o mar
apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas
que sonhamos.

Por que jardins
que nós não colheremos,
Límpidos
nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar
se não seremos
Nunca os deuses
capazes
de os viver...



Bebido o luar
Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919)


ah moça!!!
a lembrança deste teu umbigo!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um sonho a dois




Pelo silêncio
que a envolveu,
por essa
aparente distância
inatingida,
pela disposição
de seus cabelos
arremessados
sobre a noite escura:

pela imobilidade
que começa
a afastá-la talvez
da humana vida
provocando-nos
o hábito de vê-la
entre estrelas
do espaço e da loucura;

pelos pequenos astros
e satélites
formando nos cabelos
um diadema
a iluminar
o seu formoso manto,
vós que julgais
extinta Mira-Celi
observai neste mapa
o vivo poema
que é a vida oculta
dessa eterna infanta.

Essa pavana
é para uma defunta
infanta,
bem-amada,
ungida e santa,
e que foi encerrada
num profundo
sepulcro recoberto
pelos ramos
de salgueiros silvestres
para nunca
ser retirada
desse leito estranho
em que repousa
ouvindo essa pavana
recomeçada sempre
sem descanso,
sem consolo,
através dos desenganos,
dos reveses
e obstáculos da vida,
das ventanias
que se insurgem contra
a chama inapagada,
a eterna chama
que anima esta defunta
infanta ungida
e bem-amada
e para sempre santa.

Essa infanta boreal
era a defunta
em noturna pavana
sempre ungida,
colorida
de galos silenciosos,
extrema-ungida
de óleos renovados.

Hoje é rosa
distante prenunciada,
cujos cabelos
de Altair são dela;
dela é a visão
dos homens subterrâneos,
consolo
como chuva desejada.

Tendo-a a insônia
dos tempos despertado,
ontem houve enforcados,
hoje guerras,
amanhã surgirão
campos mais mortos.

Ó antípodas,
ó pólos,
somos trégua,
reconciliemo-nos
na noite dessa
eterna infanta
para sempre
amada.


JORGE DE LIMA
(1893-1953

~~~~
é isso moça
quando bater na porta
deixa entrar


antoniOCarlos
2o11


e aqui vai um MIMO para minha querida Diana
amiga ESPECIAL de Buenos Aires...





Quem um dia irá dizer que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer
Que não existe razão?


Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque
Noutro canto da cidade
Como eles disseram


Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer
Foi um carinha do cursinho do Eduardo que disse
- Tem uma festa legal e a gente quer se divertir
Festa estranha, com gente esquisita
- Eu não estou legal, não aguento mais birita
E a Mônica riu e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa
- É quase duas, eu vou me ferrar


Eduardo e Mônica trocaram telefone
Depois telefonaram e decidiram se encontrar
O Eduardo sugeriu uma lanchonete
Mas a Mônica queria ver o filme do Godard
Se encontraram então no parque da cidade
A Mônica de moto e o Eduardo de camelo
O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo


Eduardo e Mônica eram nada parecidos
Ela era de Leão e ele tinha dezesseis
Ela fazia Medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglês
Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus
De Van Gogh e dos Mutantes
Do Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol-de-botão com seu avô
Ela falava coisas sobre o Planalto Central
Também magia e meditação
E o Eduardo ainda estava
No esquema "escola, cinema, clube, televisão"


E, mesmo com tudo diferente
Veio mesmo, de repente
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia
Como tinha de ser


Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia
Teatro e artesanato e foram viajar
A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar
Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar
E ela se formou no mesmo mês
Em que ele passou no vestibular
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos, muitas vezes depois
E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa
Que nem feijão com arroz


Construíram uma casa uns dois anos atrás
Mais ou menos quando os gêmeos vieram
Batalharam grana e seguraram legal
A barra mais pesada que tiveram


Eduardo e Mônica voltaram pra Brasília
E a nossa amizade dá saudade no verão
Só que nessas férias não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo
Tá de recuperação


E quem um dia irá dizer que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer
Que não existe razão?


Eduardo e Mônica
by Legião Urbana

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Um Dia De Domingo



CARNE


Que importa
se a distância
estende entre nós
léguas e léguas

Que importa
se existe entre nós
muitas montanhas?
O mesmo céu nos cobre
e a mesma terra
liga nossos pés.

No céu e na terra
é a tua carne
que palpita

Em tudo eu sinto
o teu olhar se desdobrando
na carícia violenta do teu beijo.

Que importa
a distância
e que importa a montanha
se tu és
a extensão da carne
Sempre presente...


Vinícius .


no entanto....
eu preciso te encontrar
para andar de encontro ao vento


e é assim...
sempre...
beijos




AntônioCarlos

terça-feira, 7 de junho de 2011

Memories of Green




Lá no fundo está a morte,
mas não tenha medo.


Segure o relógio com uma mão,
pegue com dois dedos o pino da corda,
puxe-o suavemente.


Agora se abre outro prazo,
as árvores soltam suas folhas,
os barcos correm regata,
o tempo como um leque
vai se enchendo de si mesmo
e dele brotam o ar,
as brisas da terra,
a sombra de uma mulher,
o perfume do pão.


Que mais querer,
que mais quer?

Amarre-o depressa a seu pulso,
deixe-o bater em liberdade,
imite-o anelante.

O medo enferruja as âncoras,
cada coisa que pôde ser alcançada
e foi esquecida
começa a corroer
as veias do relógio,
gangrenando o frio sangue
de seus pequenos rubis.


Lá no fundo está a morte
se não corremos,
e chegamos antes
e compreendemos
que já não tem importância. ...

Julio Cortázar


e é isso moça bonita
o medo enferruja as âncoras
neste mar de medo e fúria
na indecisão de nossas vidas


não é?


beijos

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Vou Ficar Nu Para Chamar Sua Atenção



CONFITEOR



Esqueço meus
animais trancados


Minha mão
alimentante vaga
entre outras idéias,
outras sagas.

Esqueço
quem conquistei,
esqueço
animais trancados.

Acostumo,
adestro
e amestro,
faço mil exigências
e não perdôo.

Depois enjôo.

Deixo-os chorando
sobre o pão e o prato.

E parto

Por quê matar
e depois chorar
de saudade?

E matar em si também
tantas histórias,
como quem
se nega o alimento,
ou entrega
o próprio filho ao leito
para entregá-lo
ao fuzilamento?

E potes de cinzas,
quantos possuo
espalhados pelo jardim,
sob a cama,
e dentro das gavetas
também,
ai de mim,
ai de todos
que deixei
coletando as lágrimas
com que fiz
tristes colares
que apertam o pescoço!

Sofri muito
e vivi só
a maioria
dos meus anos,
bradando,
fazendo alvoroço...

Mas confesso
que tenho no peito
um assassino instinto
que preza chorar
os animais extintos,
sem lembrar
que é minha
a ânsia
de matar.

in EU NO ESPELHO, 1999
Clélia Ronamo

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

e é isso?
Você não viu?
Você não ouviu?
...prá chamar sua atenção!


Antonio Carlos


...


2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

My Little Boat



Um final de tarde
Sol amarelo e quase fraquinho
Brisa leve soprando gostoso
Palmeiras desalinhadas
Teus cabelos desalinhados
Uma praia qualquer do Nordeste
O mar de esmeralda espumante
Ao fundo canta Karrin Allyson
Te abraço
Esperamos a noite
Ver estrelas abraçados
é tão bom


e o barquinho vai.




Não é moça bonita?

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Eu não Vou Mais Deixar Você Tão Só



Por que, á luz de um sol de primavera
Urna floresta morta? Um passarinho
Cruzou, fugindo-a, o seio que lhe dera
Abrigo e pouso e que lhe guarda o ninho.

Nem vale, agora, a mesma vida, que era
Como a doçura quente de um carinho,
E onde flores abriram, vai a fera
— Vidrado o olhar — lá vai pelo caminho.

Ah! quanto dói o vê-la, aqui, Setembro,
Inda banhada pela mesma vida!
Floresta morta a mesma cousa lembro;

Sob outro céu assim, que pouco importa,
Abrigo á fera, mas, da ave fugida,
Há no meu peito urna floresta morta.



Pedro Kilkerry

é isso moça bonita
e nunca mais eu vou deixar você
tão só...


beijo

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Magic



Por que este nome, ao sol?
Tudo escurece
de súbito na casa.
Estou sem olhos.
Aqui decerto guardam-se guardados
sem forma, sem sentido.
É quarto feito
pensadamente para me intrigar.
O que nele se põe assume outra matéria
e nunca mais regressa ao que era antes.

Eu mesmo, se transponho
o umbral enigmático,
fico a ser, de mim desconhecido.

Sou coisa inanimada, bicho preso
em jaula de esquecer, que se afastou
de movimento e fome.
Esta pesada
cobertura de sombra nega o tato,
o olfato, o ouvido.
Exalo-me.
Enoiteço.
O quarto escuro em mim habita.
Sou
o quarto escuro.
Sem lucarna.
Sem óculo.
Os antigos
condenam-me a esta forma de castigo.



Carlos Drummond de Andrade

e é isso moça bonita
enquanto isso...
EXALO-ME!

terça-feira, 31 de maio de 2011

Autumn In New York



Passeiam as belas, à tarde, na Avenida
que não é avenida, é longo caminho branco
onde os vestidos cor de rosa vão deixando,
não, não deixam sombra alguma, em mim é que eles deixam.

Passeiam, à tarde, as belas na Avenida.
São tão belas como as vejo, ou mais ainda?
Só de passar, só de lembrar que passam, a beleza
nelas se crava eternamente, adaga de ouro.

Passeiam na Avenida, à tarde, as belas,
as sempre belas no futuro mais remoto.
Pisam com sola fina e saltos altos
de seus sapatos de cetim o tempo e o sonho.

À tarde, na Avenida, passeiam as belas,
seios cuidadosamente ocultos mas arfantes,
pernas recatadas, mas sabe Deus as linhas perturbadoras
que criam ritmos, e o caminho branco é todo ritmo.

Na Avenida, passeiam as belas, à tarde,
no alto da cidade que entre árvores se apresta
para o sono das oito da noite e não sabe que as belas
deixam insone, a noite inteira, uma criança deslumbrada.



Carlos Drummond de Andrade

e você bela?
por onde passeias?


me diz...


bj

sábado, 28 de maio de 2011

Palavras e Silêncio



Na primeira noite
Eles se aproximam
E colhem uma flor
Do nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite
Ja não se escondem:
Pisam as flores,
Matam nosso cão
E não dizemos nada.
Até que um dia
O mais frágil deles
Entra sozinho em nossa casa,
Rouba-nos a lua e,
Conhecendo nosso medo,
Arranca-nos a voz da garganta
E porque não dissemos nada,
Já não podemos dizer nada.

Maiakowsky


e é isso
já não podemos dizer nada amor...

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Deslizes




Amor?
Amar?
Vozes que ouvi, já não me lembra onde:
talvez entre grades solenes,
num calcinado e pungitivo lugar que regamos
de fúria, êxtase, adoração, temor.

Talvez no mínimo território acuado
entre a espuma e o gnaisse, onde respira
- mas que assustada! uma criança apenas.

E que presságios de seus cabelos se desenrolam!
Sim, ouvi de amor, em hora infinda,
se bem que sepultada na mais rangente areia
que os pés pisam, pisam, e por sua vez - é lei - desaparecem.

E ouvi amar,
como de um dom a poucos ofertado;
ou de um crime.

De novo essas vozes, peço-te.
Esconde-as em tom sóbrio,
ou senão, grita-as à face dos homens;
desata os petrificados;
aturde os caules no ato de crescer;
repete: amor, amar.

O ar se crispa, de ouvi-las;
e para além do tempo ressoam,
remos de ouro batendo a água transfigurada;
correntes tombam.

Em nós ressurge o antigo; o novo;
o que de nada extrai forma de vida;
e não de confiança,
de desassossego se nutre.

Eis que a posse abolida na de hoje se reflete, e confundem-se,
e quantos desse mal um dia (estão mortos) soluçaram,
habitam nosso corpo reunido e soluçam conosco.


Carlos Drummond de Andrade

e é isso!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Si voy a perderte





ENTRE AS COLINAS

Entre as colinas,
quando vos sentardes à sombra fresca
dos álamos brancos,
partilhando da paz e da serenidade dos campos
e dos prados distantes,
então que vosso coração diga em silêncio:
"Deus repousa na Razão".
E quando bramir a tempestade,
e o vento poderoso sacudir a floresta,
e o trovão e o relâmpago proclamarem
a majestade do céu,
então que vosso coração diga
com temor e respeito:
"Deus age na Paixão".
E já que sois um sopro na esfera de Deus
e uma folha na floresta de Deus,
também devereis
descansar na razão e agir na paixão.

Khalil Gibran


então é isso
quando a gente sente
de toda maneira
tem que se guardar