sexta-feira, 27 de maio de 2011

Deslizes




Amor?
Amar?
Vozes que ouvi, já não me lembra onde:
talvez entre grades solenes,
num calcinado e pungitivo lugar que regamos
de fúria, êxtase, adoração, temor.

Talvez no mínimo território acuado
entre a espuma e o gnaisse, onde respira
- mas que assustada! uma criança apenas.

E que presságios de seus cabelos se desenrolam!
Sim, ouvi de amor, em hora infinda,
se bem que sepultada na mais rangente areia
que os pés pisam, pisam, e por sua vez - é lei - desaparecem.

E ouvi amar,
como de um dom a poucos ofertado;
ou de um crime.

De novo essas vozes, peço-te.
Esconde-as em tom sóbrio,
ou senão, grita-as à face dos homens;
desata os petrificados;
aturde os caules no ato de crescer;
repete: amor, amar.

O ar se crispa, de ouvi-las;
e para além do tempo ressoam,
remos de ouro batendo a água transfigurada;
correntes tombam.

Em nós ressurge o antigo; o novo;
o que de nada extrai forma de vida;
e não de confiança,
de desassossego se nutre.

Eis que a posse abolida na de hoje se reflete, e confundem-se,
e quantos desse mal um dia (estão mortos) soluçaram,
habitam nosso corpo reunido e soluçam conosco.


Carlos Drummond de Andrade

e é isso!

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